jóia da Natureza
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Chapada Diamantina, interior da Bahia. Um lugar de paisagens fantásticas e muitas trilhas para todos os gostos. Cercada pela aridez do sertão, esse pedaço da Serra do Sincorá oferece muito a quem se dispõe a caminhar até seus canyons, cavernas, rios e cachoeiras.1º Dia - "Foi um pouso até tranqüilo, considerando que 20min antes o piloto não tinha certeza que daria para pousar."Foi com esse objetivo que lá cheguei em Setembro de 1999, para passar uma semana conhecendo um pouco da Chapada. Embora sendo um lugar turístico, a infraestrutura para o turista independente é um pouco fraca. É aconselhável a companhia de um guia para a maioria das trihas. Assim, optei por viajar através de um pacote de uma agência de ecoturismo.
Pouco restou da riqueza que veio com os diamantes e da mata atlântica que cercava a serra. Seu povo vive hoje quase exclusivamente da agricultura e da pecuária de subsistência, dependendo das chuvas que nunca são muito regulares. O turismo, se bem implantado, pode ajudar muito a melhorar a qualidade de vida na região sem, espero, estragar a natureza tão privilegiada.
Fui para São Paulo para de lá pegar o vôo da Pantanal Linhas Aéreas para Caravelas e Lençóis. Não havia ninguém da Venturas no check-in e eu não sabia quem mais estaria no passeio. Na sala de espera fomos informados que talvez o avião não pudesse pousar em Lençóis devido ao mau tempo - chovia há dias sem parar. O vôo até Caravelas foi tranqüilo e pudemos avistar Abrolhos antes de pousar. Até um pouco antes do pouso em Lençóis, o piloto não sabia se seria possível pousar, pois estava muito nublado e com muito vento. Ainda bem que conseguimos, pois caso contrário iríamos para Salvador e de lá seria uma viagem de mais de 5h de carro.
Terra, o representante da Venturas, estava nos esperando, junto com Carlos, gaúcho radicado na Chapada, que seria nosso guia. "Nós" significava eu e três paulistas: Ana, que eu já havia conhecido no vôo, Darcy e Teresa. Seguimos de jipe para Igatú, com uma parada em Andaraí. No caminho, atravessamos o rio Paraguaçú, que estava bem cheio. Carlos disse que a chuva da semana anterior havia atrapalhado muito os passeios.
Xique-xique de Igatú, ou simplesmente Igatú, é um vilarejo de cerca de 400 habitantes, mas que no auge da era do diamante, no final do século passado, chegou a ter mais de 9000. No posto da Telemar encontra-se o único telefone da vila. Após nos instalarmos na simpática Pousada Pedras do Igatú, fomos conhecer as ruínas das antigas casas de pedra, que até algumas décadas atrás ainda eram habitadas. Hoje em dia predominam as casas de tijolos de barro ou pau-a-pique.
O jantar foi uma deliciosa comida caseira na pousada e para finalizar ainda tinha doces de goiaba e de banana. Demos uma volta depois e vimos os preparativos para o festival anual de música que aconteceria no final de semana seguinte. É um grande acontecimento na região e vem gente de outras cidades, até mesmo de Salvador. Voltamos então para a pousada, torcendo para que o tempo melhorasse.
2º Dia - "Nadar naquelas águas límpidas, que espetáculo!"
Tomamos café da manhã às oito. Estava tudo muito gostoso e a variedade era grande, inclusive de pratos regionais como beijú e bolo de tapioca. O tempo amanheceu ainda nublado, mas melhorou ao longo do dia.
Saímos mais ou menos nove horas para o Poço Encantado, um dos locais mais visitados da Chapada. Miguel, que toma conta do lugar, protegido pelo IBAMA, foi quem nos guiou para dentro da caverna. Não é uma descida das mais fáceis, é íngreme e meio escorregadia, mas contávamos com a ajuda do Miguel e das estacas e cordas que ele instalou.
Ficamos extasiadas com o poço, de águas azuis cristalinas, formado na rocha calcária. O poço tem cerca de 100m de comprimento, 50m de largura e 61m de profundidade máxima. Uma mancha branca na superfície movia-se lentamente - é o próprio calcário. Incrível como há uma semelhança enorme com Bonito, no Mato Grosso do Sul, onde eu havia estado na semana anterior. Na temporada a gruta chega a receber 200 turistas, mas nessa época há pouco movimento, tanto que só apareceu um casal durante o tempão que ficamos lá embaixo, com Miguel contando-nos sobre a gruta e demonstrando conscientização de que sua preservação permitirá o sustento de sua família. Entre Abril e o início de Setembro, especialmente em Junho e Julho, os raios do sol atingem a superfície do poço, o que deve dar um toque ainda mais mágico ao lugar.
Fomos em seguida para o Poço Azul, apelidado de "irmão menor" do Poço Encantado. Não fica muito longe, atravessando algumas fazendas e depois cruzando o rio numa balsa. Fazia muito sol a essa altura. Chegamos quase 13:00 e iríamos almoçar lá, mas a senhora que toma conta do lugar (não tenho certeza se é a dona) não estava sabendo que iríamos e não havia preparado nada, nem se propôs a preparar. Foi até bom, pois acabamos ganhando tempo e estávamos ainda cheias com o café, e assim fomos logo ao poço, bastando descer uma pequena trilha.
Ele é realmente bem menor e tem uma plataforma de madeira para facilitar o acesso ao poço. Ao contrário do Poço Encantado, aqui é permitido nadar. Não sei se isso não acabará causando danos às formações com o tempo, por causa do suor ou até de protetores solares e repelentes que as pessoas possam estar usando. Mas foi uma experiência única. A água estava bem gelada, mas valeu a pena. Com os raios de sol entrando na gruta e iluminando o fundo daquele lago transparente, a sensação era de estarmos suspensos no ar. Foi fantástico. A paisagem mudava com o movimento do sol. Muito legal.
Na estrada de volta, vimos algumas árvores remanescentes das florestas que foram quase dizimadas para dar lugar a pastos, como ipês e jacarandás. Como ainda era cedo, em torno de 15:30, resolvemos ir logo a Mucugê, onde iríamos passar no dia seguinte, segundo nossa programação. Assim, aproveitaríamos o resto do dia e ainda ganharíamos tempo no dia seguinte.
A viagem até Mucugê, a cerca de 900m de altitude, é muito bonita, subindo a serra e com boas vistas da chapada. Nossa primeira parada foi no exótico Cemitério Bizantino, um pouco fora da cidade, com seus túmulos de adornos inspirados em outros que um morador nobre viu numa viagem à Turquia. O cemitério foi construído em parte sobre a rocha, com acesso meio difícil, achei, para a realização de um enterro.
Mucugê foi mais uma cidade que surgiu no ciclo do diamante. Achei a cidade bonitinha, com seu casario antigo parcialmente preservado e uma pracinha florida.
Visitamos o Arquivo Público, com um museu dedicado à história da cidade. Vimos objetos relacionados não só ao garimpo de diamantes, mas também objetos do dia-a-dia daquela época, como espartilhos e ferros de passar roupa.
De volta à Igatu, fomos à casa de Lindaura, onde comemos seus deliciosos bolinhos de chuva. Alzira, a falecida mãe de Lindaura, foi uma notória garimpeira e mesmo já idosa ainda garimpava. Vários fotógrafos que estiveram na região a fotografaram. Lindaura tem um verdadeiro museu em sua casa, com objetos usados no garimpo, inclusive uma delicada balança, além de fotos antigas. Tirei foto com um paletó e os óculos que teriam sido de Rui Barbosa e que um amigo dele teria dado para D. Alzira. Lindaura faz toalhas com recortes de tecido e seus filhos fazem colares de sementes e casinhas de pedra para vender para os turistas.
O jantar na pousada estava bom, mas eu nem agüentei comer muito depois de tanto bolinho de chuva...
3º Dia - "Não dá para descrever o que é ver a cachoeira lá de cima."
Acordei bem cedo para ir às ruínas antes do café, aproveitando o sol. Saímos em torno de sete horas, já com saudade da simpatia de Rita, que toma conta da pousada.
Seguimos para o lado oeste do Parque Nacional da Chapada Diamantina, passando por fora de Mucugê e depois por Guiné. Nessa região a paisagem muda, o solo é arenoso e a vegetação é de caatinga. Carlos achou conveniente que fôssemos logo à Cachoeira da Fumaça, pois ela estaria com bastante água para esse época, após tanta chuva. Nos dirigimos então ao Vale do Capão, onde começa a trilha. Encontramos Terra com um grupo de suíços e eles subiram antes da gente num ritmo acelerado.
A trilha não é difícil, só é cansativa. Primeiro subimos por cerca de uma hora, em geral por degraus das próprias pedras. Fazia bastante sol. Depois é mais uma hora praticamente só no plano, através de uma vegetação baixa típica de campos de altitude.
Carlos nos mostrou a candombá, planta endêmica, da família das velloziaceae, que contém uma resina que queima muito facilmente mesmo quando úmida, o que permite que as queimadas se propaguem com facilidade. As queimadas são um problema grande na região, pelas chuvas escassas e por falta de conhecimento das pessoas, além de um despreparo dos guardas e falta de equipamento.
Fomos até umas pedras de onde se tem uma vista da Cachoeira da Fumaça de frente. Já foi um espetáculo: uma queda de 340m - a segunda maior do Brasil. O vento esparrama a água e até a carrega para cima, fazendo uma cortina de gotas finas - daí o nome de "fumaça". Descansamos um pouco, admirando a paisagem. Vimos o grupo de Terra já no alto da cachoeira, para onde fomos logo depois, atravessando o córrego que forma a cachoeira.
A gente se aproxima da beirada das pedras engatinhando ou se arrastando. É mais uma prevenção, pois não é tão assustador quanto falam, mas realmente é um lugar onde perder o equilíbrio pode ser fatal - é um tremendo precipício. Tanto que tem gente que nem consegue se aproximar da beirada - imagine só fazer toda a trilha e depois perder a parte mais impressionante!
Fizemos nosso lanche ali, com as coisas que o Carlos comprou antes de começarmos a trilha e com umas sobras do grupo do Terra. Vimos um mocó, um roedor da região. Havia uns arbustos de folhas pequenas bem grossas e sempre-vivas nos locais mais abrigados.
Depois do lanche e de descansarmos, descemos até o córrego e chegamos perto de onde a água começa a descer. Até ali vimos arco-íris. Tem gente que vai até a beiradinha, mas não sei, as pedras molhadas ficam escorregadias. A água é escura, devido a ácidos orgânicos. Um pouco antes das duas horas da tarde, começamos a voltar. Uma hora e meia depois estávamos lá embaixo, apesar de eu ser lerda em descidas, com medo de escorregar. Que delícia usar um banheiro e beber uma água bem gelada!
De volta aos sacolejos do jipe, passamos por Palmeiras, onde fica a administração do Parque Nacional. A Cachoeira da Fumaça era a única atração de nosso roteiro dentro da área do parque, mas não existem cercas nem trilhas demarcadas. Carlos falou que o parque, embora criado em 1985, tem somente três guardas.
A paisagem da BR-242, ao longo da fronteira norte do parque, é linda, com algumas das vistas mais famosas da Chapada. Merecia umas áreas de recuo com placas explicativas, ao estilo dos parques no exterior.
Chegamos a Lençóis mais ou menos às cinco e demos uma circulada na cidade antes de fazermos o check-in na Pousada Canto das Águas. Ficamos um pouco decepcionadas porque ela não é tão aconchegante, é mais um hotel do que uma pousada. Após um bom banho, nos encontramos para o jantar, que foi ali na pousada mesmo, incluído em nosso pacote. Um exagero de comida. Ainda demos uma volta na cidade antes de dormir, mas por ser meio de semana ela estava bem quieta.
Continua ...
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texto e fotos © Maria Adelaide Silva - proibida qualquer reprodução sem concordância da autora
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Última atualização: 28/12/1999