Bonito, MS, Brasil
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O Relato

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4º Dia - "Me senti como um personagem de Viagem ao Centro da Terra."

Nossos vizinhos barulhentos estavam indo embora naquela manhã - que alívio! Aproveitando a proximidade da padaria, comprei iogurte para o café e água mineral para levar para o passeio.

Saímos da Ygarapé às 8:00, seguindo o outro carro como guia Osmar. Cerca de meia hora depois, sempre em estrada de terra (basta sair da cidade que o asfalto acaba), chegamos à recepção da Gruta do Lago Azul, único local de visitação por aqui sob responsabilidade do governo - o resto é propriedade particular. Há um número limitado de visitantes por dia, em grupos de no máximo 12 pessoas mais um guia local.

Gruta do Lago Azul Gruta do Lago Azul Começamos a visita em si às 9:00, com o guia Jagles. Após uma breve caminhada, chega-se à entrada da gruta, protegida por grades. Começamos então a descida, 180m de profundidade. O caminho não é difícil, amenizado por paradas para observar as formações. A caverna tem algo em torno de 500 a 600 milhões de anos! A gruta foi descoberta por um índio em 1924 e tombada pelo Patrimônio Histórico em 1978, que a abriu à visitação alguns anos depois. Acabou se tornando um símbolo de Bonito.

A cor azul do lago é realmente impressionante e é devida à presença de cálcio e magnésio na água - o que acontece em toda a região e torna a água pouco recomendada para beber. Gruta do Lago Azul A maior profundidade do lago é de 55m e nele habitam duas minúsculas espécies de animais: um crustáceo de 0,7mm e uma minhoca de 1cm. Já foram descobertos fósseis pré-históricos de uma preguiça gigante e de um tigre dente-de-sabre. Durante o mês de Dezembro, os raios de sol chegam à superfície do lago. Nessa época, a visitação é muito concorrida - nos disseram inclusive que para esse ano já estava quase tudo reservado. De qualquer forma, é bom verificar os melhores horários - para esta época eram os com descida entre 9:00 e 10:00, segundo nos disseram.

Tivemos sorte que, devido ao ritmo dos outros grupos, pudemos ficar bastante tempo no ponto mais próximo do lago - não é permitido chegar junto à superfície. O passeio, no total, dura cerca de 2h, sendo uns 90min na gruta em si. Saímos de lá antes de 11:30, a tempo de comer alguma coisa na cidade. Eu fui experimentar o sorvete assado: salada de frutas com sorvete e calda de chocolate, coberta com chantilly e levada ao forno. Só o chantilly esquenta, fica muito bom.

Aluguei uma câmera subaquática Canon, para experimentar, já que sempre uso descartáveis. O resultado, depois verifiquei, foi médio - algumas fotos ficaram boas, outras nem tanto, não deu para dizer que é melhor que a descartável, embora talvez seja questão de prática.

nascente do Rio Sucuri Saímos 12:30 para o mergulho no Rio Sucuri, cerca de 40min em estrada de terra. Encontramos o guia Lyglauber lá, e acho que éramos sete fazendo o passeio. O equipamento está incluído, exceto pela roupa de neoprene, alugada à parte. A gente deixa o carro no local onde o passeio termina, depois uma caminhonete nos leva ao início da trilha de 600m, vendo árvores e várias nascentes. Aí a gente pega uma canoa para percorrer os primeiros 500m, por causa do nível muito baixo da água, depois entramos na água para descer 1500m na correnteza. O barco vai seguindo atrás, com algumas de nossas coisas (câmeras, sandálias, óculos).

piraputangas Dessa vez, além dos peixes que já havíamos visto no Aquário Natural, vimos também lambaris e cascudos, mas a vegetação subaquática também chama a atenção. No entanto, acredito que por causa dela a visibilidade já é bem menor ao final do passeio. A flutuação aqui dura pouco menos de uma hora. Poderia até durar mais, se as pessoas apenas seguissem a correnteza. Após tirarmos o equipamento e nos secarmos, voltamos à recepção, onde nos aguardava um revigorante chocolate quente. Nos disseram que os melhores horários para esse passeio são os do início da tarde, como fizemos.

Às 16:00 estávamos de volta à cidade. Como tínhamos dois dias ainda sem programação, analisamos as opções, tentando chegar a um acordo. O problema é que alguns passeios são parecidos entre si. Existia a possibilidade de tentarmos ir a Bodoquena - dizem que é uma nova Bonito. Mas nada decidimos.

Jantamos no Aquário, onde Kátia e Ernani haviam encomendado um pintado na telha - é preciso ao menos uma hora de antecedência. Eu fui de filé suíço (com molho de queijo derretido, muito bom). Como sempre, veio muita comida. E mais uma vez, tomamos sorvete.

5º Dia - "Hoje foi o dia do famoso passeio ao Rio da Prata. Ótimo, exceto pela falta de sol, que só voltou ao final da tarde."

Acordamos cedo. Passava um pouco de 7:30 quando saímos da Ygarapé com o guia Marcelo, um dos mais experientes daqui, formado na primeira turma de guias há cinco anos. No nosso grupo, estava também um simpático casal de Campo Grande, Gerusa e Eduardo, que de lá estavam voltando para casa. O tempo não estava bonito, ficou nublado a maior parte do dia. No caminho, Marcelo nos contou muitas coisas sobre o turismo de Bonito. Para esse ano, seriam cerca de 50mil visitantes brasileiros e 20mil estrangeiros, proproção que nos surpreendeu.

O Recanto Ecológico Rio da Prata fica a 54km de Bonito, no município de Jardim. Levamos pouco mais de uma hora para chegar lá viajando em uma estrada de terra que estava ruim em alguns pontos. Pegamos o equipamento, incluído no preço. Só não usei colete dessa vez, pois havia percebido que a roupa já dá flutuação suficiente.

pacus Fomos de carro até perto do local onde temina o passeio. Não há barco de apoio, assim a gente leva para junto do rio as coisas que vai precisar ao sair da água (toalha, roupa, sandália). A gente já faz um primeiro mergulho ali mesmo no Rio da Prata, onde pudemos ver enormes pacus, além das onipresentes piraputangas e curimbatás. A água ali é meio turva.

macaco prego Começamos então uma caminhada de 2km pela mata, próximo do rio, vez por outra inclusive passando junto a ele. A vegetação já era nossa conhecida. Uma árvore curiosa é a figueira mata-pau, que se apóia em geral nos bacuris, envolvendo-os com seus ramos. Alguns dizem que ela mata seu hospedeiro com seu abraço, outros dizem que elas os matam ao sugar todos os nutrientes do solo. Vários macacos-prego aparecem no caminho e o guia sempre leva um pouco de milho para eles. Eles são bonitinhos.

Após 50min de caminhada, sendo atacados pelos mosquitos, chegamos à nascente do Rio Olho d'Água, afluente do Rio da Prata, onde faríamos a maior parte da flutuação - das pouco mais de duas horas dentro d'água, somente cerca de 20min finais são no Rio da Prata. A nascente é quase uma piscina repleta de peixes, onde em alguns pontos vemos a água brotando do fundo, através de um buraco ou borbulhando pela areia, tudo devido à permeabilidade do solo calcário. Além dos peixes que já conhecíamos, vimos um peixinho vermelho muito pequeno chamado mato-grosso e, bem escondido, um pintado ou talvez seu parente cachara (eles são parecidos). Ficamos uns 20 minutos, talvez mais, na nascente. Aí começamos a seguir a correnteza.

piraputangas dourado

Como o rio estava baixo, era comum termos que nos desviar de troncos e galhos. Em um trecho com corredeiras, a gente faz um desvio por terra. Os mosquitos estavam a postos para nos atacar. Tem uma outra corredeira que a gente enfrenta pela água mesmo, não é perigoso. Logo em seguida, paramos em uma plataforma para ver o "vulcão", uma enorma ressurgência, que é como são chamados os afloramentos de água. A profundidade ali já é maior, mas quem consegue afundar - eu não consigo - pode se aproximar do vulcão, que inclusive faz barulho. Enquanto descansávamos na plataforma, peixinhos nos mordiam! Mas não machucam, é só incômodo.

Pouco depois entramos no Rio da Prata, recepcionados pelos pacus, que não entram muito no Olho d'Água. A diferença entre os rios não é somente na turbidez - o Rio da Prata é mais frio e a correnteza é fraca, exigindo que nademos, o que fica cansativo. Quem quiser, pode pular essa parte e voltar pela trilha, mas todos seguimos. Depois, enquanto nos secávamos, o grupo que veio atrás de nós chegou, contando que viram uma sucuri - que inveja! Marcelo bem que havia tentado achá-la, sem nos contar.

Depois de tanto esforço, o almoço caiu bem. Não que os pratos me enchessem os olhos, mas estava com fome. Havia a famosa "sopa paraguaia", um prato típico que é mais ou menos um suflê de milho. O bom mesmo é o doce de leite, uma delícia! Após o almoço, descansamos um pouco em redes de couro. Em dias mais movimentados, deve ser difícil arrumar uma rede livre...

Buraco das Araras Saímos de lá mais ou menos ás 15:00 e fomos ao Buraco das Araras, uma cratera de 120m de profundidade, surgida do desgaste do calcário no fundo, que é carreado por rios subterrâneos, fazendo com que o solo acima perca sustentação. Ela é uma "semi-dolina", por que a parte de cima do solo é arenito. A "dolina" de verdade é formada só por calcário. A gente paga uma pequena taxa, R$2 por pessoa, para poder vê-la e dar a volta em torno dela. Este é um dos locais de prática de rappel na região. O nome do lugar vem das araras que viviam ali. Hoje o que mais tem são morcegos, que saem em revoada à noite. O Buraco tem um passado trágico, porém: muita gente foi morta e jogada lá para seus corpos não serem encontrados. Também tem uma Brasília lá embaixo, suspeita-se que foi jogada para o dono receber seguro.

De volta à cidade pouco depois de 17:00, devolvi a câmera alugada e mandei revelar os filmes. Jantamos no Tapera, onde Kátia e Ernani comeram pacu recheado (precisa encomendar de véspera), enquanto eu comi um filé com salada e purê de batatas. Mesmo de barriga cheia, fomos experimentar uma outra sorveteria, na praça principal, mas não achei o sorvete deles tão bom.

Continua ...

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texto e fotos © Maria Adelaide Silva - proibida a reprodução sem concordância da autora
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Última atualização: 4/12/1999

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