|
Início | O Relato | As Informações | História e Geografia
O Relato |
||||
|
1º Dia - "Caminhamos ao longo de uma trilha cercada, vendo os pingüins que fazem ninhos ali no verão - muito fofos!"
Finalmente... a Patagônia! Estava em Punta Arenas, onde havia chegado de avião na noite anterior. Não sei se era minha imaginação e uma vontade enorme de ver alguma coisa na paisagem da janela do avião, mas acho que vi os Cuernos del Paine quando anoitecia... às dez e meia da noite! Sob o brilho da lua cheia, vi pela primeira vez o famoso Estreito de Magalhães.
A viagem começava em Punta Arenas, capital da província de Magallanes, no extremo sul do Chile, uma cidade sem grandes atrativos turísticos mas que é o portão de entrada da Patagônia Chilena para quem chega de avião. A cidade foi chamada de "Sandy Point" por John Byron, que chegou ali no século XVIII durante uma viagem científica. No café da manhã do Hostal Estrecho, acho que eu era a única turista. Aprendi que ovos mexidos são huevos revueltos em espanhol.
Saí pouco depois das oito e passei em várias agências de viagens para conferir as informações sobre os passeios na região. Todas oferecem os mesmo passeios mais ou menos nos mesmos horários e preços. O passeio que me havia sido mais recomendado, o da Isla Magdalena, só é oferecido três vezes por semana e aquele não era um deles. O passeio à reserva Magallanes, onde se pode caminhar e conhecer a vegetação da região, não é oferecido regularmente e acabei assim optando pelo passeio ao Fuerte Bulnes, que comprei na agência Eco Tour.
|
|||||
|
Como tinha tempo antes do passeio, caminhei pelo centro da cidade, que já foi rica devido ao tráfego internacional de navios, mas que perdeu importância com a abertura do canal do Panamá. A principal atividade econômica da região hoje em dia é a exploração de carvão e de petróleo. Subi ao mirante para ver a cidade com o Estreito de Magalhães ao fundo. O dia estava lindo, ensolarado e não fazia muito frio. Na Plaza Muñoz Garnero há uma estátua em homenagem a Fernão de Magalhães, o famoso navegador português que, a serviço dos reis da Espanha, conseguiu descobrir uma passagem - que hoje leva seu nome - para o oriente pelo extremo sul da América em 1520. Foi uma viagem extremamente difícil e com grandes perdas humanas - o próprio Magalhães morreu durante a viagem, no sudeste asiático. Foi Magalhães que deu o nome ao Oceano Pacífico. Em torno da praça ainda existem algumas das antigas mansões dos ricos exportadores de lã do final do século XIX, como o Palácio Sara Braun, hoje Hotel José Nogueira. |
||||
|
Eu havia pensado que o passeio ao Fuerte Bulnes seria um pouco chato, mas na verdade é interessante pelas paisagens no caminho, oferecendo um primeiro contato com a Patagônia e com seus fortes ventos. No caminho, vimos várias fazendas de gado (estancias) onde se criam vacas e ovelhas. De um mirante, vimos o final da cadeia dos Andes e a ponta onde acaba o continente americano - abaixo dali, só ilhas, inclusive as que formam a Terra do Fogo, dividida entre o Chile e a Argentina. Depois de cerca de uma hora, chegamos ao forte, mas antes de visitá-lo fizemos uma curta e agradável caminhada nas pedras junto ao mar - um mar calmo que não mostrava nenhum traço da fúria enfrentada pelos antigos navegantes. Localizado em Punta Santa Ana, a cerca de 50km de Punta Arenas, na verdade é uma reconstrução do forte original de 1843, que teve papel fundamental na retomada da região pelos chilenos, pois os ingleses haviam invadido o sul do Chile. O forte tem várias construções de madeira, inclusive uma simpática capela. Existe uma cafeteria junto ao forte que serve lanches e refeições, mas preferi ficar passeando e tirando fotos. O retorno à cidade foi uma sonolenta viagem. A história da região é de muitos desafios, o que pode ser observado nos nomes dos lugares, como Puerto Hambre (Porto da Fome), onde passamos rapidamente, local onde alguns marinheiros espanhóis morreram de fome após um naufrágio no século XVI. Embora tão ao sul do país, fomos surpreendidos na estrada pelo marco do centro geodésico do Chile: é que os chilenos consideram uma fatia do continente antártico como parte de seu território... De volta à cidade, comprei iogurtes e um bolinho no supermercado (foi meu almoço) e passei na pousada antes de pegar um ônibus para a Zona Franca, onde esperava encontrar algum material fotográfico. Existem várias linhas de ônibus para lá, com tarifas que variam de 150 a 200 pesos, aparentemente em função da qualidade dos veículos. Após cerca de 15min zigue-zagueando por ruas residenciais, cheguei à Zona Franca, composta de um shopping center e algumas outras lojas. Muita coisa de eletrônicos, perfumes e eletrodomésticos, mas de fotografia havia muito pouca variedade. Embora eu tenha acertado com a agência de me pegarem na Zona Franca, como era cedo ainda eu voltei à cidade, onde comprei um gorrinho para tentar proteger meus cabelos dos ventos fortes. |
||||
|
Antes de 17:00 eu estava na agência Laguna Azul para fazer o passeio à colônia de pingüins. Desta vez, era uma van maior, com umas doze pessoas. Encontrei um dos turistas do passeio da manhã, Massimo, com o qual aproveitei para praticar meu italiano enferrujado, embora o que saísse fosse uma mistura de italiano com português e espanhol. Seguimos por cerca de 70km rumo ao Seno Otway, um canal ligado ao oceano Pacífico, onde fica uma reserva na qual os pingüins de Magalhães fazem ninhos de novembro a março.
Durante cerca de uma hora, caminhamos pelas trilhas - cercadas para evitar que os turistas incomodem os pingüins e até mesmo destruam algum ninho - vendo estas simpáticas criaturinhas. Alguns estavam quietos, outros passeando, todos parecendo alheios à nossa presença. Com quatro meses, um filhote já é quase do tamanho dos pais, mas com a penugem cinza. É nessa época que eles fazem suas primeiras incursões no mar para aprender a pescar - até então, os pais os alimentam regurgitando os peixes que pescam nas fartas águas dali. Os pingüins formam casais para a vida toda e voltam sempre ao mesmo lugar para por seus ovos - um ou dois a cada ano. No caminho vimos um filhote de raposa, que junto com os leões marinhos são os principais predadores dos pingüins. Na volta vimos também um ñandu, a ema da Patagônia. Fiquei com pena de não poder fazer o passeio ao Monumento Nacional de Los Pinguinos, na Isla Magdalena, onde a colônia é enorme - mais de 150 mil pingüins - e não há cercas. Quem foi, adorou. Cheguei de volta à pousada já quase 21:30, com o dia ainda claro - que confusão isso faz na gente, parece que ainda é cedo! Comi um sanduíche no Lomit's, a algumas quadras da pousada. Encontrei o Massimo lá de novo - que cidade pequena!
|
||||
|
2º Dia - "Nas primeiras duas horas de viagem só se avistam planícies; no final é que surgem as montanhas e a neve."
Peguei o ônibus da Bus Pacheco para Puerto Natales que saía às 8:30. Apesar de eu ter comprado o bilhete na véspera e a empresa parecer organizada, havia outro passageiro com o mesmo assento, mas como eu já estava ali e meu bilhete estava na lista do motorista, fiquei ali mesmo onde eu queria, na primeira fila, com vista panorâmica. São cerca de 250km de uma boa estrada até Puerto Natales, cidade à beira do Seno Ultima Esperanza que vivia principalmente da pecuária antes do boom do turismo. É uma cidade pequena e agradável, que eu imaginara cheia de turistas nessa época de alta temporada, mas embora muitas pousadas estivessem cheias, até que não se via tanta gente. Deve ser uma visão deturpada minha, já que vivo em uma grande cidade turística. Puerto Natales é o ponto de chegada de quem vem de barco desde Puerto Montt - uma viagem de quatro dias que dizem ser muito bonita, passando por canais e geleiras.
Da parada do ônibus até o Hostal Drake andei umas poucas quadras. A pousada é muito agradável e o preço muito bom - uma boa dica do meu guia Footprint.
Fui à Onas, agência com a qual eu tinha tratado o passeio de dia inteiro que me levaria de barco até o Parque Nacional Torres del Paine. Falta acertar alguns detalhes das reservas e tive que voltar mais tarde para apanhar os vouchers. Almocei no restaurante Cristal, que tem um cardápio variado e me havia sido recomendado. Passeei mais um pouco e fui à simpática igreja, simples mas acolhedora.
Existe um passeio que muita gente faz perto de Puerto Natales, que é a Cueva del Milodon. Trata-se de uma caverna onde foi encontrado o fóssil de uma pre-histórica preguiça gigante - existe inclusive um modelo em plástico do bicho - mas realmente não me interessou. Preferi ficar curtindo Puerto Natales, me preparando para enfim começar a etapa principal da minha viagem.
À noite tomei uma sopa no simpático Concepto Indigo, à beira do canal, em companhia de um casal de brasileiros que conheci na Onas, Marcelo e Flávia. Assistimos a uma sessão de slides que eles fazem (mas não é sempre, será que é a pedido?), com imagens principalmente da Patagônia. Comi também um delicioso brownie. O cardápio das sobremesas, aliás, me deixou com água na boca...
|
|||||
|
3º Dia - "Sob um sol maravilhoso e um céu azul, tenho todo o maciço do Paine à minha frente, até a geleira Grey. Um cenário de sonho!" Antes de 7:00 eu estava tomando meu café-da-manhã, ansiosa para começar o passeio. Deixei a mala na pousada, o carro da Onas o levaria por terra até o parque. Uma boa, pois vi o trabalho que deram umas malas durante o passeio. |
|||||
|
Fui para o cais, onde estava o barco Nueva Galícia, que deveria sair às 7:30, mas atrasou por causa de um grupo grande. O barco estava lotadíssimo. São quase 4h de navegação através do Seno Ultima Esperanza. A palavra "seno", pelo que entendi, significa um braço de mar, como um fiorde. Nesse trecho junto a Puerto Natales, deveríamos ver golfinhos, mas não apareceu nenhum. Após cerca de uma hora de viagem, já se avistam o Monte Balmaceda (2035m) e parte do maciço do Paine - uma visão que me encheu de excitação.
Vimos uma enorme colônia de cormorãs nos penhascos e mais adiante uns três leões marinhos escondidos numa gruta. Fiquei a maior parte do tempo na cabine de comando, que tem uma visão muito melhor que na cabine de passageiros, além de ser mais quentinho que ficar no convés... O Monte Balmaceda fica visível quase todo o tempo e à medida em que nos aproximávamos, víamos melhor a geleira (ou glaciar, em espanhol) Balmaceda, que desce do monte. Até cerca de quinze anos atrás, a geleira chegava ao nível do mar. |
||||
|
Chegamos ao destino final do barco, Puerto Toro, na entrada do Parque Nacional Bernando O'Higgins, perto de meio-dia. A partir dali caminha-se por cerca de 45min para ver a geleira Serrano. É uma trilha bem fácil, vendo lindos icebergs flutuando num lago de um lado e a vegetação da Patagônia do outro - inclusive o calafate, um arbustos muito comum na região, que dá uma frutinha vermelha, com a qual se fazem geléias e sorvetes. Não pudemos ficar muito tempo vendo a geleira, pois os guias nos chamaram para voltar ao cais e continuar o passeio, agora subindo o rio Serrano em botes infláveis. Mas éramos somente catorze pessoas fazendo este passeio, o resto voltaria a Puerto Natales no barco. Acredito que, se não fosse o atraso da saída de Puerto Natales, poderíamos ter ficado curtindo o visual da geleira por mais tempo. Mas Paine nos aguardava. O bote é bem grande. Sob os assentos, há compartimentos para abrigar a bagagem (mochilas, basicamente, pois malas não cabem bem ali). Usamos coletes salva vidas, mas o passeio é muito tranqüilo, a única emoção fica por conta da bela paisagem. O céu estava claro - pela manhã estivera meio nublado. Vimos o Monte Balmaceda por outro ângulo, depois a geleira Tyndall, que tem 7km de largura e 90m de altura. Ela é a maior do Paine - ah, sim, a esta altura já estávamos no Parque Nacional Torres del Paine, com 180000 hectares de Patagônia selvagem e que foi declarada Reserva da Biosfera pela UNESCO.
Como todas as principais geleiras da região, inclusive a famosa Perito Moreno na Argentina, ela faz parte dos Campos de Hielo Sur (Campos de Gelo Sul), uma massa de gelo que começa a cerca de 350km dali. Depois de cerca de 1:30h de viagem, chegamos a uma corredeira, assim deixamos o barco e seguimos por uma trilha (outro lugar inconveniente para estar com uma mala) até um ponto acima do rio onde outro barco nos aguardava para continuar o passeio, que é muito gostoso e relaxante. Após mais uma hora, chegamos ao camping Serrano. Êxtase total: o maciço do Paine estava todo à nossa frente, seus picos emergindo da planície como que furando a terra, o branco das geleiras e da neve ofuscando a vista. Ficamos feito bobos, incontroláveis diante da beleza da paisagem, tirando fotos e mais fotos. Uma coisa curiosa com relação a estas montanhas é que a região em torno delas está praticamente ao nível do mar. Elas não fazem parte dos Andes, pertencendo a uma outra formação bem mais recente de solo sedimentar.
|
||||
|
Lanchamos em frente a este cenário arrebatador, depois me afastei um pouco do grupo para curtir a paisagem em silêncio - ou quase, já que o vento nunca parava de soprar, sacudindo a vegetação rasteira. Disse a mim mesma: "Bem vinda à Patagônia". Acho que ficamos ali por uma hora, depois nos distribuíram nas vans conforme o destino dentro do parque. Eu e outros três turistas ficamos na Hosteria Tyndall (minha mala estava lá - que alívio!). Ela fica numa antiga fazenda e tem uma vista magnífica para as montanhas. Não me cansava de olhar a paisagem pela janela do quarto. Esta noite no hotel, incluindo jantar, fazia parte do pacote que comprei na Onas, saía bem em conta para quem comprava o passeio de barco e de rio. |
||||
|
O hotel tem guias e oferece passeios. Meu plano era fazer a trilha da geleira Grey - uma das três pernas do circuito W, como é conhecido o grupo de trilhas mais populares do parque, composto ainda pelas trilhas do Vale Francês e Las Torres - mas havia um incêndio na região e, pelas informações obtidas por rádio com a sede do parque, a trilha estava fechada por causa da fumaça. Resolvi então, embora fosse um pouco caro (US$70), fazer um passeio de carro de dia inteiro pelo parque. Existiam outras opções de caminhadas fora as que eu já havia programado fazer depois, mas todas muito longas - coisa como 6h só de ida. Subi para o jantar quase 21:00, de olho no pôr-do-sol. A comida é boa, embora não haja muita variedade, exceto nas saladas. O pão é delicioso! Enquanto jantava, ficava de olho na paisagem, para tirar umas fotos com os raios vermelhos do sol sobre os picos. Uma bela maneira de terminar o dia! |
||||
| Continua... | |||||
|
© Maria Adelaide Silva Rio de Janeiro, Setembro de 2002 Última atualização em 21/Set/2002 Visite a Página da Adelaide |
English version
|
||||